O Gordo chegou em Buenos Aires com o propósito de cursar medicina. Ele acabou percebendo que matemática era a sua grande paixão e voltou dias depois para o Brasil.
Carta para minha família:
"Sim, hoje eu posso dizer que estou literalmente acabada! O dinheiro que eu e o Gordo tínhamos juntos está praticamente no final. Mas isso não é o maior problema, o que eu acho pior é que hoje o Gordo acordou mais tristonho que nos outros dias. Disse que sonhou que estava deitado no colo na Isis conversando com ela. Mas em meio a melancolia que paira sobre o nosso quarto, fui surpreendida por uma notícia. Nosso amigo do hostel, Vitor (conhecido por Paulista) foi roubado. Sumiu da carteira dele 150 dólares e $ 1.100 pesos argentinos. Que tragédia, coitado do guri! Acabou que ele bateu no nosso quarto cedo para contar o que aconteceu e pedir para que guardássemos alguns pertences pessoais dele na nossa habitação.
Eu precisava trocar real por peso para poder pagar o hostel e definir de vez a nossa ida para a casa de estudantes, que está localizada ao lado do hostel. Fui com o Gordo até a rua Florida (uma super famosa que tem aqui). Por infelicidade do destino, as duas casas de cambio que possuem as melhores cotações estavam fechadas. Aproveitamos que já estávamos no centro e fomos até uma loja de instrumentos musicais. Para a minha surpresa, TODOS os instrumentos estavam a venda em dólar! Lembramos muito do Pery quando víamos os violões. O saudade do Nego... ainda nessa mesma tarde, passamos por uma manifestação, até tentei gravar no celular, mas a qualidade certamente não ficou boa! Aqui, pelo que percebi, se o povo se sente ameaçado, a rua e as faixas falam por eles. Fazer manifesto com muitas pessoas é normal! Ponto para os argentinos.
Acertam em algumas coisas... Mas o ERRO É MAIOR. Aqui em Buenos Aires eles "juram" que são europeus. Cobram somente em dólar e fazem manifestações nas ruas por um salário melhor! A moeda deles não o peso?” (Letícia Bohrer - Facebook, 19h 09 min. de 08/03/12, quinta-feira).
No caminho de volta para casa, mais uma manifestação! Pois é, mas dessa vez eu não entendi porque. Só consegui ver algumas pessoas com cornetas, faixas, gritos alucinados e camiseta de um time que eu não consegui identificar.
O Gordo me dizia no caminho que estava “odiando” Buenos Aires. Que tudo isso é uma ilusão. Se conseguirmos pensar e compreender as coisas como ele, de fato tem razão! Quando retornamos para o hostel, percebi que ele deitou na cama e se calou. Lagrimas e mais lagrimas no rosto do Gordo. Entrei na internet e acessei o Skype...
“Pai, a situação aqui apertou, o Gordo esta muito triste”. (Letícia Bohrer - 14h 58 min. de 08/03/12, quinta-feira).
Prontamente o Pai conversou com ele...
“Brigue até o último tento, ..o último cartucho,...e quando tu concluir que para conseguir o que tu te propos a ir é muita coisa e para consegui-la vai ter que sacrificar o que foge do teu controle somente ai,....VOLTE”. (Pai – 15h e 32 min. de 08/03/12 de quinta-feira – Skype)
“Então,.... já que tu estás aí,..na peleia,...brigue,..contra tudo que vier ao desencontro daquilo que tu te propôs enquanto tiver o coração batendo,...brigue” ((Pai – 15h e 36 min. – Skype)
“Na guerra muitas vezes o comandante dava o comando de recuar,.. e dai,...qual o problema em recuar,....claro, ele estava querendo preservar a vida dos seus comandados. A vida, nos casos com o teu é a mesma coisa. Se tu ver que ficar é sinônimo de DERROTA, volte correndo”. (Pai – 15h e 36 min. – Skype)
No meio de tanta areia nos olhos, chega o Veneno com uma notícia boa da rua... Conseguiu sacar o dinheiro que estava bloqueado do Brasil, através do Western Union! Que peso fora dos ombros. Parte engraçada: o Veneno estava com tanto medo de ser roubado! Ele tinha no bolso $ 4.7950,00 pesos que estavam dentro da meia. Os outros $ 5,00 na carteira, para se sentir rico (risos). O Gordo saiu do quarto e foi tomar um banho e o Veneno sacou que o Gordo queria ir embora. Meu Deus, socorre o Veneno! Outro chorando...
Hoje almoçamos pão com mortadela e coca-cola. Estava muito bom, mas quando fico triste ou nervosa não tenho fome. Bueno, mas almoçamos. O Gordo está com uma bolha enorme nos pés de tanto caminhar, e o Veneno com a havaiana arrebentada. Acabamos rindo da havaiana dele e tivemos uma dúvida: como se fala prego em espanhol? Sim, ele quer um prego para a havaiana...
Adivinha o que o dono da havaiana arrebentada fez esta noite? (essa parte deixamos para o diário pessoal de viagens, rsssss).
Hoje falei no skype com o Pai, a Mãe e o Bernardo! Eis que a Mãe precisou ir até a cozinha enquanto falava comigo (ela estava no Galpão), quem aparece na câmera? A Tia Leduina. Com seus sóbrios 81 anos falando comigo através da internet. Dá-lhe Ledu!
Água gelada para tomar banho, nossa 'pasta de dente' está acabando e até agora não trocaram nossos lençóis. Estamos mal, muito mal... Eita! Mas sempre rimos de alguma coisa que o Veneno apronta! Hoje ele chegou muy borracho aqui no quarto, e disse a seguinte frase: Meu, se vocês continuarem assim, vocês vão ficar igual o pé da Valquíria".
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