21 de janeiro de 2014

Vamos a la playa!

Nosso destino era Mar del Plata, terra de Astor Piazzolla, um dos ícones da música argentina. Nossa viagem de trem foi uma grande aventura! 
 
Praia da cidade de Mar del Plata. Sempre tem cães por lá.
 
Mar del Plata enchia os nossos olhos e nossos ouvidos e ficávamos super atentos quando alguém contava que esteve lá e o que tinha visto. Foi numa dessas loucuras das nossas viagens de última hora que decidimos fazer o roteiro e comprar as passagens! Fomos até o Terminal de Retiro, a rodoviária de Buenos Aires. Uma passagem de bus sairia mais ou menos $400,00 (pesos argentinos) e se fôssemos de trem, sairia por $70,00 somente ida (mais ou menos). Muita diferença! Eu procurei no site o valor atualizado para postar aqui, mas infelizmente a linha que leva Buenos Aires à Mar del Plata está desativada.

Fomos de trem! Compramos a passagem... 23:05 estava marcado a saída do trem da estação de Constituición. Os trens da Estação de Retiro, do lado do terminal de bus, saem para o norte do país, os de Constituición para o Sul.

O Luiz chegou da faculdade e perguntou se estava tudo pronto. Ele é do estilo: "vou tomar um banho e em 10 minutos saímos". Eu sou do estilo que mente sem saber: "10 minutinhos estou pronta".  Nós tínhamos combinado de correr, mas como ele tinha aula não deu tempo. Só lembro que eu perguntei pra ele: "nós vamos correr?". A resposta foi: "o trem sai em 45 minutos". Claro que eu atrasei para sair e quase perdemos o trem. Pegamos os passaportes e o cobertor (nosso fiel cobertor suavidade. Um dia conto a história dele) e fomos para a estação. A Argentina não tem uma tradição de ser pontual com horários de saídas de trem, mas naquele dia nós (eu) extrapolamos. A ideia era de ir de subte (metro) ou de ônibus, mas o táxi foi a salvação. 

Olhando para o relógio a cada minuto já estávamos desistindo de viajar: "Não vai dar tempo".  Eu iria comer meu próprio fígado se não desse para embarcar. 

"Che! Llegamos". O troco ficou com o taxista, que fez por merecer! Correu e nos entendeu. Chegamos no portão de embarque e uma surpresa, não era aquele o correto, o portão era outro e a corrida foi grande. Perguntamos para las personas e nenhuma delas sabia, o jeito foi raciocinar rápido e analisar. Vimos um trem, o último! Só poderia ser aquele! Entregamos os boletos para o senhor que estava no portão e ele não disse nada. Bom! Era ali! Perguntei que horas sairia na esperança de dar tempo de comprar uma água... Ele respondeu um "ahora" que entrou na nossa cabeça como um "corre"!

Típica cena de filme, a buzina do trem tocou e nós não sabíamos qual era o nosso vagão. Bateu um desespero e o Luiz gritou para eu entrar em qualquer um. Acredite! O trem estava em movimento! No desespero eu subi na primeira escada que vi... Subi não, fui empurrada. Ele estava atrás de mim e me jogou para dentro do vagão. Foi engraçado nós dois caindo um por cima do outro com mochila e tudo. Bueno, entramos. Vagão errado e a vergonha. As pessoas estavam rindo da gente como se tivéssemos feito aquilo de propósito. Caminhamos mais uns 3 ou 4 vagões até encontrar o nosso. Foi legal, marcou e nós não vamos mais esquecer.

Dependendo da classe que você compra, os trens da Argentina são antigos mas confortáveis. Eu gosto! Na madrugada entra aqueles dois senhores vendendo café quente e sanduíche. Como não deu tempo de preparar uma farofa, o jeito foi comprar. Caríssimo! O café $10,00 e o sanduíche $25,00. Por isso que eu sou fã de levar o lanche da madrugada.

A viagem durou mais ou menos 7 horas. Foi confortável e o trem foi bem. Falo foi bem porque na nossa viagem para Bahia Blanca quebrou 2 vezes. Não tinha mais hostel disponível naquela data na cidade, então sem precisar sem o tempo todo mochileiro, ficamos em um hotel barato e pedimos para o dono dele nos buscar na estação. Aquele cara de olhos claros e alto logo apontou para nós dois e perguntou com um sotaque muito estranho: "Luiz? Letícia?". O Vitor é um russo que está na Argentina há mais de 10 anos. Ele e a Tatiana (até hoje eu não sei se é irmã ou esposa) abriram esse hotel porque queriam paz e tranquilidade. No caminho ele nos contou que era do exército russo, e que nadava todos os dias no mar. Acreditamos sim, aquela tatuagem no braço dele não enganava ninguém. Simpática, a Tatiana nos recebeu. Éramos os únicos dentro do hotel! Longe do centro! Muito longe de tudo.


Recomendo o hotel. A receptividade é muito boa e o caminho para chegar nele lindo. Um mar maravilhoso caminha com você o tempo todo! Vou deixar o link para quem gostaria de entrar em contato: http://www.mardelplata.com/alojamiento/hotel-del-faro.html



Ainda no trem. Chegada em Mar del Plata.

Na recepção do hotel você vai encontrar uma bíblia em russo. Sorte e sucesso se quiser ler. Ainda pela manhã, quando largamos as mochilas me dei conta de duas coisas que perdi: meu celular e meu brinco (de ouro). Merda! Ligamos para o número, alguém disse do outro lado que devolveria e os brincos nunca mais... E o celular? Nunca mais também.

O jeito foi curtir sem estresse e depois se preocupar com o celular. Vantagens de viajar com  um celular super barato e vagabundo. Estava caindo aquela chuva de molhar bobo, o tempo estava feio, mas resolvemos caminhar na praia. Fomos de ônibus, a vista da janela del colectivo é maravilhosa. A água da praia hermana é muito fria, mas o mar,  num todo, muito bonito. Enquanto caminhávamos, encontramos um homem que tinha uma aparência triste. Quando ele escutou que nós estávamos falando em português tratou logo de chegar mais perto e contar seu martírio! Ele era apaixonado por uma brasileira que morou na Argentina, mas depois que ela voltou para o Brasil, ele praticamente não soube mais nada dela. E nessa sequência de drama, ele apontou para um prédio (apontou com o dedo mesmo) e disse: " Allá vivió  Astor Piazzolla. Él fue un gran musico argentino y allá vivió un gran artista que cometió suicidio. Una pena, una pena...". Uma pena mesmo eu senti dele, que em cinco minutos contou três desgraças.


A cidade tem muitos pontos turísticos e um deles é o porto (mas sobre o porto eu conto outro dia). Tem lobo marinho de mentira e de verdade (e é a mais pura verdade). O de mentira deu para subir e brincar de cavalinho, mas o de verdade deu o maior susto na gente.





Prometo continuar esse relato outro dia...




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