Nosso
destino era Mar del Plata, terra de Astor Piazzolla, um dos
ícones da música argentina. Nossa viagem de trem foi uma grande
aventura!
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| Praia da cidade de Mar del Plata. Sempre tem cães por lá. |
Mar
del Plata enchia os nossos olhos e nossos ouvidos e ficávamos super
atentos quando alguém contava que esteve lá e o que tinha visto.
Foi numa dessas loucuras das nossas viagens de última hora que
decidimos fazer o roteiro e comprar as passagens! Fomos até o
Terminal de Retiro, a rodoviária de Buenos Aires. Uma passagem de
bus sairia mais ou menos $400,00 (pesos argentinos) e se fôssemos de
trem, sairia por $70,00 somente ida (mais ou menos). Muita diferença!
Eu procurei no site o valor atualizado para postar aqui, mas
infelizmente a linha que leva Buenos Aires à Mar del Plata está
desativada.
Fomos
de trem! Compramos a passagem... 23:05 estava marcado a saída do
trem da estação de Constituición. Os trens da Estação de Retiro,
do lado do terminal de bus, saem para o norte do país, os de
Constituición para o Sul.
O
Luiz chegou da faculdade e perguntou se estava tudo pronto. Ele é do
estilo: "vou tomar um banho e em 10 minutos saímos".
Eu sou do estilo que mente sem saber: "10 minutinhos
estou pronta". Nós tínhamos combinado de
correr, mas como ele tinha aula não deu tempo. Só lembro que eu
perguntei pra ele: "nós vamos correr?". A resposta foi: "o
trem sai em 45 minutos". Claro que eu atrasei para sair e quase
perdemos o trem. Pegamos os passaportes e o cobertor (nosso fiel
cobertor suavidade. Um dia conto a história dele) e fomos para a
estação. A Argentina não tem uma tradição de ser pontual com
horários de saídas de trem, mas naquele dia nós (eu)
extrapolamos. A ideia era de ir de subte (metro) ou de ônibus, mas o
táxi foi a salvação.
Olhando
para o relógio a cada minuto já estávamos desistindo de
viajar: "Não vai dar tempo". Eu
iria comer meu próprio fígado se não desse para embarcar.
"Che!
Llegamos". O troco ficou com o taxista, que fez por
merecer! Correu e nos entendeu. Chegamos no portão de embarque e uma
surpresa, não era aquele o correto, o portão era outro e a corrida
foi grande. Perguntamos para las personas e nenhuma delas sabia, o
jeito foi raciocinar rápido e analisar. Vimos um trem, o último! Só
poderia ser aquele! Entregamos os boletos para o senhor que estava no
portão e ele não disse nada. Bom! Era ali! Perguntei que horas
sairia na esperança de dar tempo de comprar uma água... Ele
respondeu um "ahora" que entrou na nossa cabeça como um
"corre"!
Típica
cena de filme, a buzina do trem tocou e nós não sabíamos qual
era o nosso vagão. Bateu um desespero e o Luiz gritou para eu entrar
em qualquer um. Acredite! O trem estava em movimento! No desespero eu
subi na primeira escada que vi... Subi não, fui empurrada. Ele
estava atrás de mim e me jogou para dentro do vagão. Foi engraçado
nós dois caindo um por cima do outro com mochila e tudo. Bueno,
entramos. Vagão errado e a vergonha. As pessoas estavam rindo da
gente como se tivéssemos feito aquilo de propósito. Caminhamos
mais uns 3 ou 4 vagões até encontrar o nosso. Foi legal, marcou e
nós não vamos mais esquecer.
Dependendo
da classe que você compra, os trens da Argentina são antigos mas
confortáveis. Eu gosto! Na madrugada entra aqueles dois senhores
vendendo café quente e sanduíche. Como não deu tempo de
preparar uma farofa, o jeito foi comprar. Caríssimo! O café $10,00
e o sanduíche $25,00. Por isso que eu sou fã de levar o lanche da
madrugada.
A
viagem durou mais ou menos 7 horas. Foi confortável e o trem foi
bem. Falo foi bem porque na nossa viagem para Bahia Blanca quebrou 2
vezes. Não tinha mais hostel disponível naquela data na cidade,
então sem precisar sem o tempo todo mochileiro, ficamos em um
hotel barato e pedimos para o dono dele nos buscar na estação.
Aquele cara de olhos claros e alto logo apontou para nós dois e
perguntou com um sotaque muito estranho: "Luiz?
Letícia?". O
Vitor é um russo que está na Argentina há mais de 10 anos. Ele e a
Tatiana (até hoje eu não sei se é irmã ou esposa) abriram esse
hotel porque queriam paz e tranquilidade. No caminho ele nos contou
que era do exército russo, e que nadava todos os dias no mar.
Acreditamos sim, aquela tatuagem no braço dele não enganava
ninguém. Simpática, a Tatiana nos recebeu. Éramos os únicos
dentro do hotel! Longe do centro! Muito longe de tudo.
Recomendo
o hotel. A receptividade é muito boa e o caminho para chegar nele
lindo. Um mar maravilhoso caminha com você o tempo todo! Vou deixar
o link para quem gostaria de entrar em
contato: http://www.mardelplata.com/alojamiento/hotel-del-faro.html
Na
recepção do hotel você vai encontrar uma bíblia em russo. Sorte e
sucesso se quiser ler. Ainda pela manhã, quando largamos as mochilas
me dei conta de duas coisas que perdi: meu celular e meu brinco (de
ouro). Merda! Ligamos para o número, alguém disse do outro lado que
devolveria e os brincos nunca mais... E o celular? Nunca mais também.
O
jeito foi curtir sem estresse e depois se preocupar com o celular.
Vantagens de viajar com um celular super barato e vagabundo.
Estava caindo aquela chuva de molhar bobo, o tempo estava feio, mas
resolvemos caminhar na praia. Fomos de ônibus, a vista da janela del
colectivo é maravilhosa. A água da praia hermana é muito fria, mas
o mar, num todo, muito bonito. Enquanto caminhávamos,
encontramos um homem que tinha uma aparência triste. Quando ele
escutou que nós estávamos falando em português tratou logo de
chegar mais perto e contar seu martírio! Ele era apaixonado por uma
brasileira que morou na Argentina, mas depois que ela voltou para o
Brasil, ele praticamente não soube mais nada dela. E nessa sequência
de drama, ele apontou para um prédio (apontou com o dedo mesmo) e
disse: " Allá vivió Astor Piazzolla. Él fue un
gran musico argentino y allá vivió un gran artista que cometió
suicidio. Una pena, una pena...". Uma pena mesmo eu senti dele,
que em cinco minutos contou três desgraças.
A
cidade tem muitos pontos turísticos e um deles é o porto (mas sobre
o porto eu conto outro dia). Tem lobo marinho de mentira e de verdade
(e é a mais pura verdade). O de mentira deu para subir e brincar de
cavalinho, mas o de verdade deu o maior susto na gente.


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